💸 o imposto te persegue

e em lisboa, a ia entrou no jogo

07/06/2026
edição especial - domingo

Toda carreira tem um relógio, e o da advocacia tributária acabou de ser reiniciado. a reforma que entra em vigor reorganiza dez anos de trabalho pela frente, e é disso que trata esta edição especial de domingo. depois, levamos você a lisboa, onde passamos a semana ouvindo o que a inteligência artificial está mudando no direito.

Sobre esta edição

Esta edição começa puxando pela história, porque ela explica muita coisa: o imposto move o Brasil desde a colônia, e a reforma que entra em vigor é só o capítulo mais recente de uma briga antiga entre quem cobra e quem paga. Daí a gente chega ao evento do dia 19, feito para você entender o que muda na prática, e fecha em Lisboa, onde passamos a semana ouvindo as maiores autoridades do país falarem de inteligência artificial. Quanto da sua rotina vai ser diferente daqui a cinco anos?

📜 O imposto é o fio da história do Brasil

Antes de ser tese de doutorado ou tema de evento, o imposto foi estopim. A história brasileira pode ser contada pela linha de quem cobrava e de quem se recusava a pagar. No Brasil colônia, a tributação não era um detalhe administrativo: era o próprio mecanismo do pacto colonial, a forma como Portugal extraía da colônia o que sustentava a metrópole. O Quinto sobre o ouro, a Derrama, os tributos sobre o sal e os escravizados, todos desenharam o mapa das revoltas que pontuam os séculos XVII e XVIII.

Quando o Brasil se torna independente e depois república, o sistema tributário deixa de ser instrumento de extração colonial e passa a ser instrumento de Estado, mas a lógica de fundo permanece: quem define o que se cobra define o desenho da economia e da sociedade. A criação do imposto de renda em 1922 marcou a entrada do país na tributação moderna sobre a riqueza, e não por acaso veio acompanhada de décadas de resistência política, desde a primeira tentativa frustrada de D. Pedro II, em 1843.

O sistema que a reforma tributária agora desmonta é herdeiro direto dessa trajetória: uma colcha de tributos sobre o consumo (ICMS, ISS, PIS, Cofins) costurada ao longo de quase um século, com competências divididas entre União, estados e municípios, e uma complexidade que virou marca registrada do país. A transição para o IBS e a CBS é a tentativa mais ambiciosa de reescrever essa página desde 1965. Entender a reforma, portanto, não é só dominar regra nova: é saber em que ponto da história a gente está.

🔥 Vezes em que o imposto moveu o Brasil

O Quinto (séc. XVIII). Sobre todo o ouro extraído na colônia, a Coroa portuguesa cobrava um quinto, 20% do metal, que precisava passar pelas casas de fundição oficiais. O ouro não declarado era contrabando, punido com degredo. Foi o tributo que financiou parte da fortuna de Portugal e, segundo historiadores, ajudou a bancar até a industrialização inglesa.

A Derrama e a Inconfidência (1789). Quando a arrecadação do ouro caía mas a meta de 100 arrobas anuais não, Portugal recorria à Derrama: soldados entravam de casa em casa confiscando bens até completar o valor devido. A iminência de uma nova Derrama foi o estopim da Inconfidência Mineira, a revolta que custou a vida de Tiradentes.

A Revolta do Maneta (1711). Em Salvador, então capital do Brasil, o aumento dos tributos sobre o sal, as mercadorias e os escravizados levou a população a invadir a Câmara por dois dias. O nome veio de um dos líderes, um mercador apelidado de "o Maneta". A Coroa recuou e adiou os impostos.

A Revolta do Vintém (1879-1880). No Rio de Janeiro, a criação de uma taxa de um vintém (20 réis) sobre cada passagem de bonde levou a população às ruas entre dezembro e janeiro. Houve bondes destruídos, barricadas e mortos. O imposto acabou derrubado, e o episódio entrou para a história como um dos primeiros grandes protestos urbanos do país.

O imposto de renda (1922). Depois de quase 80 anos de tentativas frustradas, desde D. Pedro II em 1843, o imposto geral sobre a renda foi instituído pela Lei 4.625, de 31 de dezembro de 1922, com a primeira cobrança em 1924. Nasceu sob o mesmo coro de sempre: críticos o chamavam de "vexatório" e "difícil de executar".

💸Revolução Tributária: o que muda na sua rotina e na do seu cliente

Créditos de Imagem: Reprodução

É nesse fio histórico que entra a reforma atual. No dia 19 de junho, a Lawletter promove o Revolução Tributária, um encontro online de seis horas sobre o que muda com o novo modelo e os efeitos práticos para a advocacia nos próximos anos, com Caio Bartine, Murilo Abreu, Paulo Duarte Filho e Matheus Pontalti.

O nome não é exagero. A transição para o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) reorganiza a lógica de tributação, de creditamento e de estruturação de contratos. Para o cotidiano das pessoas, muda a forma como o imposto aparece na nota e como incide sobre o que se consome. Para o advogado, a mudança é mais profunda: boa parte do conhecimento acumulado sobre ICMS, ISS, PIS e Cofins passa a conviver com um sistema novo, as teses de planejamento construídas sobre o modelo antigo precisam ser revistas, e uma safra inteira de litígios vai nascer dos pontos de atrito da transição. As novas regras alcançam da indústria ao comércio, da prestação de serviços tradicional a setores que mal se viam no debate, como a creator economy de influenciadores e infoprodutores.

O evento se divide em quatro frentes: a mecânica do IBS, da CBS e do Imposto Seletivo (Paulo Duarte Filho); o que sobrevive e o que acaba no planejamento tributário (Caio Bartine); onde vão nascer os conflitos no novo contencioso (Murilo Abreu); e quem paga a conta mais cara entre os setores da economia (Matheus Pontalti). Acontece em dois blocos, das 9h às 12h e das 14h às 17h, online. Não é um curso introdutório nem leitura especulativa: é síntese estratégica para quem precisa entender, com fundamento, o terreno que vai ocupar a carreira na próxima década.

📌 Revolução Tributária, 19 de junho, online, das 9h às 12h e das 14h às 17h. Gravação e certificado à parte. 👉 Garanta seu acesso

✍️ Quem vai ao palco do dia 19 estudou a reforma para poder explicá-la. E você, onde registra o que entende?

A reforma vai gerar dúvida, tese e divergência pelos próximos dez anos, e quem escrever primeiro sobre cada ponto vira referência. A coluna da Lawletter é o espaço para construir essa autoridade enquanto o tema ainda se forma

🇵🇹 Fórum de Lisboa: o que foi o evento

Na primeira semana de junho, a equipe da Lawletter passou os dias em Portugal, na cobertura presencial do XIV Fórum Jurídico de Lisboa e do Diálogos sobre Inovação & Direito, em Oeiras. Foi a maior edição do Fórum em 14 anos: mais de 450 participantes de 15 países, 71 painéis temáticos, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Organizado pelo IDP com o Lisbon Public Law Research Centre da FDUL e a FGV Justiça, o encontro teve como eixo a nova ordem internacional, a tecnologia e a soberania. A programação cobriu inteligência artificial na advocacia e no Judiciário, soberania tecnológica, regulação digital, proteção de crianças, integridade eleitoral, judicialização da saúde e litigância climática. Entre os nomes internacionais, o Nobel de Economia de 2025, Joel Mokyr, e o jornalista Thomas Friedman, três vezes Pulitzer.

Do lado brasileiro, ministros do STF e do STJ, o presidente da Câmara, a cúpula da OAB e professores de várias universidades. Dias antes, em Oeiras, o Diálogos sobre Inovação & Direito reuniu ministros e pesquisadores e lançou a 3ª edição do Painel LGPD nos Tribunais, pesquisa que já mapeia cerca de 20 mil casos com menção à lei. De tudo o que ouvimos nos dois eventos, um tema atravessou quase todos os painéis: a inteligência artificial e o que ela faz com o direito. É o que reunimos no bloco seguinte.

🤖 O que aprendemos em Lisboa sobre a Inteligência Artificial e o Direito

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Barroso: a IA não substitui, mas deixou de ser opcional. Em entrevista exclusiva à Lawletter, o ex-ministro e ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso resumiu a posição que ouvimos de vários ângulos: a inteligência artificial não vai substituir juízes nem advogados, mas virou ferramenta auxiliar incontornável, e a capacitação para usá-la deixou de ser escolha. Ele ponderou que a tecnologia rende mais quando o profissional já domina o assunto, e que o julgamento humano segue insubstituível. "A gente não pode temer as novas tecnologias, mas também tem que ter certeza de que elas sejam direcionadas para o bem", disse Barroso.

Créditos de Imagem: Lawletter

Laura Schertel: a LGPD que amadurece. No mesmo evento, a professora da UnB e do IDP apresentou o outro lado da balança. O Painel LGPD nos Tribunais mapeou cerca de 20 mil casos, dos quais 5 mil analisados em profundidade, e indica que o país saiu da fase de adaptação e entrou em consolidação. Entre os temas mais recorrentes, ela destacou a responsabilidade civil e o crescimento do debate sobre o direito à revisão humana de decisões automatizadas.

Cueva: a IA e as eleições de 2026. O ministro do STJ e integrante do TSE Ricardo Villas Bôas Cueva levou a discussão ao terreno eleitoral. O avanço da IA, o custo cada vez menor e a popularização de deepfakes barateiam a manipulação da informação e o microdirecionamento, com potencial de interferir na vontade do eleitor. Cueva lembrou que o TSE atualizou a legislação após audiências públicas e defendeu reforçar governança e controle, num ano em que o país vota.

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Moraes e Gonet: a responsabilidade das plataformas. O ministro Alexandre de Moraes defendeu uma regulamentação internacional para acabar com o anonimato nas redes e impor transparência aos algoritmos, comparando o momento à criação da ONU em 1945. A mesma direção apareceu na fala do procurador-geral da República, Paulo Gonet, no Diálogos: a responsabilidade das plataformas tem que ser correlata ao poder que o algoritmo tem de influenciar a sociedade.

A fotografia que trouxemos de Lisboa é de dois tempos. A norma, representada pela LGPD, amadurece na jurisprudência. A inteligência artificial, que corre mais rápido do que qualquer lei, cobra um marco próprio em três frentes ao mesmo tempo: no treinamento dos modelos, na proteção das eleições e na responsabilidade das plataformas. As entrevistas completas e os bastidores estão no Instagram @law.letter, @lawlettereventos e no portal.

☕ 3 Ideias para aproveitar o domingo

🌳 Para sair da tela. Escolha uma receita que dê trabalho de verdade, das de fim de semana sem pressa. Cozinhar com calma é o oposto de despachar petição em prazo, e o cérebro agradece a troca.

🎬 Para ver. O Veredito (1982), com Paul Newman como um advogado em decadência que aposta tudo num último caso de erro médico. Um dos melhores retratos do que se passa na cabeça de quem vai a júri.

📖 Para ler algo que não é jurisprudência. Nexus, de Yuval Harari, sobre como as redes de informação moldaram a história. Conversa de longe com tudo que ouvimos em Lisboa, sem ser livro jurídico.

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🌙 a gente se vê amanhã, no horário de sempre, às 6h

Aproveite o domingo, recarregue as ideias…